O que ninguém fala sobre inovação

Gestão 22 April, 2017 Jefferson Alex

Pernambuco é um estado que respira inovação em vários setores, fazendo com que surjam oportunidades o tempo todo e isso faz girar a “roda da inovação”. Uma das iniciativas que vem ganhando força é a grande oferta de cursos, workshops e toda a sorte de eventos sobre inovação e empreendedorismo.

Mas, tem algumas questões que não são levantadas nessas apresentações e discursos sobre empreendedorismo. Veja bem…

Você já se deparou com alguém falando sobre inovação, empreendedorismo, CESAR, Porto Digital, ideias inovadoras, tecnologia, startup, modelo de negócio e outros termos sobre esse tema. Disso eu não tenho dúvida, pois é um assunto que parece não ter um esgotamento.

A UFPE desenvolveu e adota uma disciplina chamada “Projetão” (Inovação e Empreendimentos), o SEBRAE oferece cursos de inovação, o ITEP é parceira e apoia eventos sobre inovação em Pernambuco. Só ai você já tem uma grande rede de conhecimento, entrelaçado, promovendo o discurso de que é necessário inovar.

Eu sou muito cético e para que me convençam que algo funciona é necessário que haja evidências. Já ouvi em muitas palestras os participantes de projetos de inovação falarem sobre as ferramentas, sobre as metodologias e vários discursos de auto-ajuda ¬¬

Conheço e faço a difusão de várias das ferramentas que são utilizadas e mostradas para auxiliar a construção de projetos de inovação, como o CANVAS, mapa de valor, conceito Lean, entre outros. Porém há uma questão que sempre levanto quando eu falo sobre essas ferramentas: Você poderia ver tudo isso em um curso de administração, se não “matar” as aulas e se pegar um bom livro.

Outro ponto que sempre fico pensando quando assisto à um discurso de alguém falando sobre ferramentas de inovação: “essa pessoa já praticou isso alguma vez?”, ou ao menos já teve uma empresa e precisou resolver problemas com essas ferramentas?

A maioria das pessoas com quem já me deparei até hoje falando sobre inovação nunca tiveram uma empresa, jamais precisaram buscar oportunidades de inovação em sua área de atuação e o máximo de conhecimento que tem sobre o assunto é o que vê os outros fazerem (muitas vezes sem sucesso).

Recentemente assisti um discurso de um empreendedor que ficou devendo horrores e até hoje insiste usando os métodos que lhe foram passados durante um processo de incubação. Enquanto isso as pessoas que lhe instruíram estavam batendo palmas, usando o discurso da startup fracassada como se fosse um case de sucesso. Fica fácil você dizer que é preciso insistir um pouco mais quando se tem um emprego fixo/público e seu papel é, basicamente, repetir as “fórmulas mágicas da inovação”.

O problema não está na ferramenta nem na metodologia, mas sim no discurso. O que isso quer dizer?

Em muitas rodadas de workshop sobre ferramentas de inovação eu vejo exemplos que não fazem sentido para quem está aprendendo. Um exemplo é que já ouvi tentarem explicar a estratégia do oceano azul, dando como exemplo o Cirque du Soleil para uma turma de engenheiros civis. A contextualização é importante para o aprendizado, pois quando se dá exemplos muito distantes a compreensão é praticamente impossível e isso colabora para que o discurso seja repetido sem argumentação.

Os mesmos exemplos são dados em diversos casos, como é o caso do Dropbox e do AirBNB. Parece que são os únicos exemplos que o pessoal que ministra as palestras de inovação conhecem e ficam repetindo um para o outro.

Diferente do que se tenta vender, não é um “Vai lá e faz” que vai resolver o dilema de uma startup. Para ir lá e fazer é necessário ter tempo, orçamento e equipe. Já ouvi um “futurista” dizendo que não era para ficar preso em pesquisas – é muito fácil falar, quando se tem um emprego fixo e se é pago para falar para os outros esse texto. Não é ele quem arca com os custos do erro. Ao mesmo tempo, fica falando que “as pesquisas apontam X ou Y tendências e comportamento do Z consumidor”… fiquei sem entender qual era a orientação e se a pessoa estava realmente querendo ajudar.

Lean Startup não é errar bastante e continuamente, corrigindo rápido. Essa é a interpretação que já ouvi muitas vezes. Acredito que essas pessoas nunca leram o livro de Eric Ries ou não sabem interpretação de texto (ou as duas coisas). No livo Startup Enxuta, Eric fala sobre suas experiências para desenvolver o ambiente IMVU e como lançou mão de algumas técnicas para tentar lançar e melhorar seu projeto, com baixo custo em um ambiente inovador.

Ele errou muitas vezes? Sim! Assim como todos que já tentaram entrar no mercado com qualquer que seja o tipo de negócio, enfrenta barreiras que não previu ou que abstraiu para poder iniciar. Mas a ideia de Eric em lançar o livro não é incentivar que as pessoas errem, mas que aprendam com os erros – principalmente se puder aprender com o erro alheio, pois custa muito menos 😉

Bom, posso passar mais algumas dezenas de linhas aqui falando sobre detalhes dos discursos de “inovação”, mas prefiro ficar por aqui e depois criar outro artigo para continuar essa exposição. Se você chegou até aqui lendo, mande uma mensagem pelo Linkedin e terei prazer em bater um papo sobre isso.

 

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Jefferson Alex

Analista de Marketing com especialização em projetos digitais. Designer em formação, analista de sistemas e sempre em busca de aprendizado contínuo.